Lição do dia

— Bem, há mais uma coisa em que acredito, William. Eu acredito naquilo que
vejo. Por isso sou um homem relativamente rico. Por isso sou um homem vivo. Em sua
maioria, as pessoas não acreditam no que veem.
— Não?
— Não. A menos que isso acompanhe algo em que elas já acreditam. Sabe o que
vi na drogaria que frequento? Aconteceu a semana passada.
— O que foi?
— Eles têm lá um aparelho de medir a pressão. Quero dizer, esse aparelho às
vezes aparece nos centros comerciais também, mas na drogaria é grátis. Você enfia o
braço por uma alça e aperta um botão. A alça se fecha. A pessoa fica lá sentada um
instante, tendo pensamentos tranquilos, enquanto o aparelho trabalha. A informação
surge no alto, em enormes números vermelhos e faiscantes. Então, a gente espia em
uma tabela, que diz “baixa”, “normal” e “alta”, para saber o que significam aqueles
números. Deu para entender? – Billy assentiu.
— Muito bem. Pois lá estou eu, esperando que o cara me dê um vidro do remédio
estomacal que minha mãe toma para suas úlceras. Então, chega um sujeito gordo,
bamboleando-se. Quero dizer, ele deve pesar uns bons cento e quinze quilos, seu
traseiro dá a impressão de dois cães brigando debaixo de um cobertor. Em seu nariz e
nas bochechas há um mapa rodoviário de beberrão e posso ver um maço de Marlboro
em seu bolso. Ele pega alguns daqueles protetores de calos Dr. Scholl’s e vai andando
para a caixa registradora, quando a máquina de tirar pressão atrai seus olhos. O cara
vai até lá, senta-se, e a máquina faz o que tem de fazer. No alto, surge o resultado.
Vinte e dois por treze, marca. Ora, eu pouco entendo as coisas do maravilhoso mundo
da medicina, William, mas sei que vinte e dois por treze está na categoria do arriscado.
Quero dizer, é o mesmo que andar por aí com o cano de uma pistola carregada
enfiado no ouvido, certo?
— Certo.
— Pois o que fez o imbecil? Olhou para mim e disse: “Estas merdas digitais estão
todas fodidas.” Então, pagou por seus protetores de calos e foi embora. Sabe qual a
moral da história, William? Certos caras – um bocado de caras – não acreditam no que
estão vendo, em particular se isso for contra a maneira como querem comer, beber,
pensar ou acreditar. Eu não acredito em Deus, mas se o visse, acreditaria. Não ando
por aí dizendo: “Bem, isso foi um grande efeito especial.” A definição de um imbecil é
“um cara que não acredita no que vê”. Pode escrever o que eu digo

A maldição do Cigano- Stephen King

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